No momento em que se percebe:

  1. que as opiniões pessoais ganham status de verdade bíblica;
  2. que a suficiência das Escrituras é abandonada por métodos de crescimento ou torna-se apenas mero acessório para fundamentar mensagens que agradem a massa (óbvio, de maneira sutil e quase imperceptível);
  3. que quando interpretações particulares recebem mais atenção nos púlpitos do que a exposição da sã doutrina; quando o símbolo de maturidade cristã torna-se manifestações eivadas de um emocionalismo extremado por métodos de manipulação, via emoção, em detrimento do fruto do Espírito;
  4. e, que quando o sentir-se bem é buscado como o ponto mais alto do culto…

Eis aqui um diagnóstico sóbrio e doloroso: a fé é superficial, a comunidade é fraca, a vulnerabilidade às distorções batem à porta e o culto não passa de um grêmio recreativo, fruto de um evangelho diluído, tudo isso proveniente de uma realidade sem o devido respeito e estima ao que seria uma “teologia saudável” ou o desprezo à importância da teologia.

Já no primeiro século, o cristianismo era tido por muitos como um movimento irracional. Celso, filósofo platônico do século II, conhecido como um dos principais críticos intelectuais do cristianismo primitivo, em seu livro “O Discurso Verdadeiro”, acusava os cristãos de seguirem cegamente esse movimento irracional. De igual maneira, vários filósofos ridicularizaram o cristianismo. Afirmar que Jesus era “Senhor” confrontava o culto ao imperador. A teologia nasceu, portanto, como defesa da fé (apologética).

No século XVIII, o movimento conhecido como Iluminismo, movimento intelectual, filosófico e cultural, exaltou a razão humana em detrimento da revelação divina. A Bíblia passou a ser vista como mito, milagres foram negados e a autoridade da Igreja foi questionada. Diversos pensadores atacaram durante o cristianismo institucional, como por exemplo, Voltaire, filósofo e escritor francês, um dos grandes representantes do Movimento Iluminista na França.

É nesse contexto de que surge o racionalismo teológico e o liberalismo. Com o avanço do cientificismo, no século XIX, a teologia foi considerada “não científica”, várias universidades passaram a tratá-la como mito religioso e o naturalismo excluiu o sobrenatural do debate acadêmico, juntamente com a influência de Charles Darwin, um dos principais naturalistas britânico, que fortaleceu essa visão e que muitos interpretaram como incompatível com a fé cristã, dado aos “supostos avanços” das novas “luzes”.

Não obstante, a hostilidade por parte da igreja veio e de maneira curiosa: O anti-intelectualismo ganhou força mediante uma parte do pietismo; alguns movimentos passaram a afirmar que a teologia era algo desnecessário, pois já tinham as manifestações do Espirito. O culto ao experiencialismo exagerado, torna uma realidade em que a emoção substitui a doutrina; o que funciona é o certo; a teologia passou a ser vista como algo “frio”, “divisivo” ou “desnecessário”. A verdade absoluta deu lugar ao relativismo, onde a verdade é subjetiva. Cada um produz sua própria verdade e conceitos de fé. Nesse cenário, defender a doutrina torna-se um ato intolerante.

Apesar tudo, a própria Escritura já previa essa resistência, como o próprio apostolo Paulo escreveu a Timoteo “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina.” (2 Timóteo 4:3). Embora seja por muitos, tido como ridículo, fazer teologia é essência porque organiza e sistematiza o conhecimento sobre Deus, que está de forma proposicional nas Escrituras.

Não se trata de especulações ou mera teoria, mas sobretudo de conhecer em profundidade aquele que servimos. Assim podemos conhecer quem é Deus, e seu caráter, que na sua maior parte, está dissolvido em palavras nas Escrituras. Por isso, fazer teologia nada mais é do que um ato de amor e reverencia Deus. Não se trata de um academicismo frio e vazio, mas sobretudo, um ato de obediência a um dos imperativos mais contundentes das Escrituras Sagrada:

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.”
(2 Timóteo 2:15 — ARA)

Conclui-se que a teologia não é opcional, mas uma necessidade primaria da comunidade da fé, e a julgar pelo cenário atual, urgentíssima. Conhecer a Deus forma correta, não só faz a comunidade da fé permanecer diante das crises culturais, como edifica, protege e direciona seus membros. Portanto, investir no conhecimento teológico é investir da saúde espiritual da igreja.

Samuel Gois